quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Você vem comigo?

Bistrô da Ponte

Para ser grande, sê inteiro:
nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda brilha,
Porque alta vive.
(Fernando Pessoa)












                                                                                   Jardim Botânico  






Sempre tive loucura por esse tema de Pat Metheney, que ganhei em CD em janeiro deste ano (eu só tinha a do álbum em vinil Offramp).

Vi o show dele, na primeira edição do Free Jazz, no teatro do Hotel Nacional-RJ, que durou 3 horas. Estupendo!



Particularmente nesta música, ele ia trocando de guitarras, numa sucessão de diversidade de timbres e intensidades alucinante.




Sempre achei incrível a forma como a evolução da linha melódica vai transmitindo, sem palavras (e não é que achei uma versão com vocalises de Anna Maria Jopek?), o universo mágico de uma conquista in progress.  


"Você vem comigo?" começa branda na ideia do convite, vai crescendo num envolvimento contagiante até alcançar o clímax de um pedido desesperador.















e na versão vocal com Jopek:
http://www.youtube.com/watch?v=m8-3DQ7yjvs
  
 

Busca & Fertilidade


A questão não é o que se come entre o Natal e o Ano Novo, mas o que se come entre o Ano Novo e o Natal. Ah, quanta sabedoria embutida nesta singela frase...

Como em todo final de ano, aparecem aquelas enxurradas de dicas na mídia a nos orientar como não adquirir (mais) calorias indesejáveis neste período.

Gente, na boa, quem é que pode engordar mais que um quilo - um e meio, vá lá que seja - em apenas uma semana? E se acontecer? A alface não há ter sido criada em vão! E o agrião está aí para quê?

Os conselhos chegam aos turbilhões. Privilegie as frutas, frescas e secas. As nuts fazem bem à saúde, mas consuma com moderação, porque têm muita gordura, embora não trans. Eleja carnes magras. Vá de saladas com molhos lights, à base de iogurte. Faça um lanchinho antes da ceia, tipo meia fatia de pão integral, meia fatia de queijo branco e meia fatia de peito de peru. E não esqueça de levar uma maçã, para resistir às tentações das sobremesas.

Como é que é??? Fazer lanchinho antes de ceias preparadas com tanto esmero, com as comidas mais deliciosas? Vê lá se sou mulher de comer gelatina para me prevenir contra torta de chocolate! Ainda mais por ostentar com orgulho o salvo conduto de não pisar no mesmo ambiente frequentado por rabanadas. Só de pensar naquela fritura açucarada embebida em ovo e leite...blargh! Nem deixando a Defesa Civil de sobreaviso. Honestamente, há que se ter dignidade até para engordar.

Cara, se já temos que atravessar o ano todo evitando frituras, gorduras e tudo o mais, será que não dá para uma vez ao ano merecermos uma farofa multifacetada, com, digamos, assim, uma dúzia de ingredientes, de castanha a azeitona?

Minha indignação atingiu o clímax ao ler, outro dia, uma matéria com orientações para que a criança não engorde em uma festa de aniversário...Ah, peralá, vamos ser francos! Quem gosta de comer em festa de criança somos nós, adultos!!! Desde quando crianças, se têm, no cotidiano uma alimentação equilibrada, engordam em suas comemorações? Estão mais ocupadas em gastar calorias, brincando sem parar.

O fato é que ninguém vive sem comida. A falta dela é responsável pelo triste quadro que bem sabemos existir em nosso e em muitos países.

Quando criança, não havia o que me fizesse entender a importância do tal “comércio de especiarias” no circuito econômico internacional. E o caminho marítimo para as Índias, concebido com o intuito de monopolizar esse business? As especiarias eram consideradas o ouro das Índias. A canela, o gengibre e a pimenta, produtos difíceis de obter e pelos quais se esperavam mercadores do Oriente.

Minha visão infantil de subsistência sustentável não conseguia assimilar que o mundo necessitasse tanto de commodities além de feijão, arroz, bife, purê de batatas, biscoitos e, blue chips!, granulados de chocolate para o brigadeiro.

Com o passar do tempo, fui reconhecendo que, de fato, a vida sobre a Terra não é possível sem pimenta do reino. Comida é cultura e, como tal, um dos elementos importantes para recontar a história dos povos – e seus manejos de sobrevivência. E, fundamentalmente, um convergente de afetos em volta de uma mesa.

Ah, quer saber? Entendo os que são obcecados por não engordar 1 grama. Afinal, equilíbrio é indispensável. E seus corpinhos precisam estar em harmonia com a tenrice dos respectivos cérebros.

Neste Natal, quem é de apreciar a boa mesa, que aprecie, sem neuras.

O mais fino alimento será sempre abraçar os que amamos.



O melhor de tudo é que, mesmo que o tempo desconheça a cronologia humana, podemos aproveitar o efeito simbólico para um recomeçar diferente. Que não fique apenas em iniciar uma dieta.

Em tempos de preocupação mundial com o bem estar do planeta, que tal estabelecer metas voluntárias de mitigação de sobrepesos emocionais, desimportâncias, ruídos paralisantes, avarezas e saudades, por exemplo?

Essa padaria, que se empenha com afinco no garimpo de ambrosias físicas e espirituais, deseja-vos:

* Busca, sempre – essa palavra mágica. E que trabalho que dá! Tão mais fácil o conforto do já conquistado, copiar os desenhos tantas vezes já feitos.

* E fertilidade.


Obs: Baideuêi, alvíssaras: até que enfim achei um patê de fígado decente - não industrializado, ça va sans dire. A quem interessar, no Talho Capixaba: Patê Toscano. Geladinho, com torrada integral. Bonzão!



Padaria Momento Explosão Passional:

Ana Carolina canta “Evidências” (José Augusto-Paulo S. Valle):
http://www.youtube.com/watch?v=SH9rZV0FqPA

Chicas cantam “Espumas ao vento” (Accioly Neto):

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Gôndola Café, terça                      


                  
      

       "O que lembro, tenho"
           (Guimarães Rosa)






"Nenhuma presença é mais real que a falta" (Myriam Fraga)



"Há um contar de si no escolher" (João Cabral de Melo Neto)




O super Gato Barbieri em Last Tango in Paris:

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

 Azul Marinho, segunda

Um corpo quer outro corpo
Uma alma quer outra alma e seu corpo

Este excesso de realidade me confunde
(Adélia Prado)



Arthur Rubinstein - Chopin - Heroic Polonaise Op. 53



segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Vivement dimanche

Após um fds às voltas com modelos de regulação do mercado de capitais, um finzinho de domingo bom demais. Até rimou.

Venga, domingo

Vídeo da linda Luar de Sol, de Jorge Vercillo:

"Deixa-me respirar longamente, longamente, o cheiro dos teus cabelos, mergulhar neles o meu rosto inteiro, como um homem sedento na água de uma fonte, e agitá-los com a minha mão como um lenço cheiroso, para sacudir lembranças no ar". - Baudelaire, O spleen de Paris, XVII.

Se me chamasses 

Se me chamasses, sim,
se me chamasses!
Deixaria tudo,
preços, catálogos,
o azul do oceano nos mapas,
os dias e suas noites,
telegramas antigos
e um amor.
Tu, que não és meu amor,
se me chamasses!
E ainda espero tua voz:
telescópios abaixo,
lá da estrela,
por espelhos, por túneis,
por anos bissextos
pode ela vir. Não sei donde.
Do prodígio, sempre.
Porque se tu me chamares
- se me chamasses, sim, se me chamasses! –
será de um milagre,
incógnito, sem o ver...

(Pedro Salinas)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Tela quente, tela fria



Abraços partidos - Assistido no Leblon 1. É bom.




Chanel avant Chanel - Assistido na Laura Alvim. Lindo, lindo...Audrey Tautou na medida, trilha sonora maravilhosa.


Julie&Julia - Assistido no Leblon 2. Boring. Um filme sobre cozinhar que não dá vontade de fazê-lo (nem de comer)...hum...alguma coisa ali está fora da ordem para o meu paladar. Logo no início, tive ânsias de sair correndo do cinema, com o modo de comer do marido de Julie. Céus, o que é aquilo? Aula de etiqueta do homem de Neanderthal? Disgusting!

De cara, também estranhei Maryl Streep, sendo a atriz que é, numa emissão vocal três tons acima, já que (em vã suposição) ponderei que ninguém fala daquela maneira. Mas, em se tratando dela - que, improvavelmente, iria errar na mão -, ao chegar em casa, me dei ao trabalho de catar na internet uma imagem com áudio da verdadeira Julia Child, para conferir se era aquilo mesmo. E era. Logo, a composição de MS é, comme d´habitude, precisa.

A questão, portanto, corre ao largo da interpretação. Longa demais (já ouvi gente dizendo que dormiu), a película tem de bom mesmo...Paris. Ainda assim, em pouquíssimas cenas. Impossível não lembrar de Festa de Babette (com Stéphane Audran) ou Chocolate (com Juliette Binoche). Mas o que esperar dos EUA abordando...gastronomia? Claro que, só para ficar nesses três filmes, a comida é fio condutor para retratar as relações humanas. Contudo, J&J, diferentemente dos outros dois, não toca, não emociona, não expõe conflitos e superações de forma convincente. Lógico que não esperava nenhum filme de arte, apenas diversão. Mas nem isso. Os personagens são muito sem pegada...Ainda bem que no começo tem um gostinho de Paris. 
Baideuêi, falando em comida, não vejo a hora de degustar a maravilhosa edição de Afrodite, Contos, Receitas e Outros Afrodisíacos, livro de Isabel Allende, que ganhei de presente. Mas, para esta cerimônia de leitura, pelo que já andei folheando, melhor passar antes numa... Deli...


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009


Arpoador, quinta

                                                                                                                                                                                                                                                                  



Yume, quinta




 
 
 
 Sambaíba, sexta                                                                                       Diagonal, sábado


Mok, domingo

                                                                                                                    
     Minha família, meus amores, meus amigos queridos, agradeço a todos pelo afeto de sempre.

Vocês são o sentido profundo e iluminado dos dias.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009


Sawasdee, sábado.

domingo, 22 de novembro de 2009

Algumas coisas


Fui ver o filme "Aconteceu em Woodstock". Hum...sei lá, mil coisas...

E, também, o lançamento do CD da cantora Verônica Ferriani, na Modern Sound. Esse, sim, um programa legal. Voz bonita, limpa e bom repertório (tirou do baú "Com mais de 30", de Marcos e Paulo Sergio Valle). E mais a participação de Áurea Martins. Tudo escoltado por um espumante gelado e patê de campagne. 

                                                          
No feriado, fornadas na padaria, depois praia e diversão caseira. Repasto japa, regado a dvds de Antonio Villeroy, Jorge Vercillo e Ana Carolina. E, claro, cd de Clarisse Grova.

Sábado e domingo, fornadas e mais fornadas na padaria. E, em algum momento, com o sorriso cheio de luz de minha afilhada querida, que fará um ano e meio nesta semana. E assim nós vamos vivemos de amor.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Luzes e sombras

                                                                 Manabu Mabe, fotografado por Victor Hugo Mori

Sábado, caminhada cedo na praia. O roteiro previa, com a retomada do Diário de Susan Sontag, prosseguir mais tarde a leitura em alguma sombra silenciosa do Jardim Botânico. Mas, ao avistar o mar verde e claro de longe, não teve jeito. Voltei para casa, peguei os sanduichinhos que seriam degustados sob as árvores - ciabatta com parma, brie e maionese de hortelã - e fixamos território na areia. Resultado: 4 horas (sim, 4 horas) dentro d´água. Céus, que mar era aquele?

À noite, na patagônia caseira, Guinga ("Cheio de dedos") e o recente "Nove", de Ana Carolina.

Vamos de SS (aos 16 anos, ok?):

"As ideias perturbam a regularidade da vida".

"Vou anotar todo o estúpido desperdício de hoje para que eu não seja complacente e transigente comigo mesma amanhã".

E o momento maravilhoso em que ela cita com aprovação a reflexão de Elias Canetti - "Tento imaginar alguém dizendo para Shakespeare: `Relaxe!`". Ah, eu, MS, jamais poderia supor encontrar-me em tão nobre companhia: relaxar é coisa que, francamente, desconheço.


Domingo, mais praia, com Histórias de Mulheres, livro da espanhola Rosa Montero, colunista do jornal El País, sobre meninas como Camille Claudel, Margaret Mead, George Sand/Aurore Dupin e Frida Kahlo. Para alegrar os corações, sanduíches de pão italiano, lombo com ervas, maionese de curry e rúcula e pão de campanha, lagarto defumado, gorgonzola e tomate seco.

                                                           

Este foi o antídoto que busquei para tentar neutralizar um pouco os efeitos deletérios produzidos por um "microacidente" cuja causa o ministro de Minas e Energia julga prescindir de explicações (e é bom mesmo encerrar esse papo chatíssimo sobre os eternos contingenciamentos do orçamento federal para cumprir metas de superávit fiscal, e mais boring ainda discutir a gestão das agências reguladoras). Sem contar um Tribunal de Contas da União ameaçado de só poder fiscalizar as obras públicas depois de concluídas.

Et la vie, qu`est que cèst? Jolie, très jolie, bien sûr...Ça va sans dire.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Mar - Palco - Tela - Paladar

Praias de sonho no período, perfeitas para colocar a leitura em dia.

Para levar as crianças, a boa é a peça "Tip&Tap", no Teatro das Artes (Shopping da Gávea).


Para os mais crescidos, o filme "O Solista", assistido no Estação Ipanema.

 Ah, e tapa de polvo e batatinhas assadas, escoltando uma sangria bem gelada, no Venga.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Brasa da palavra, explosão de sons


Foto: Ana Paula Rêgo

Fui ontem ver o show de lançamento do CD e DVD das Chicas - "Em tempo de crise nasceu uma canção".

Primeiramente, a emoção de voltar ao teatro onde assisti a espetáculos inesquecíveis (de Bethânia, Elis), o hoje Oi Casa Grande, ao qual, desde sua reinauguração, ano passado, ainda não tivera oportunidade de voltar.

Foi uma viagem no tempo. Impressionante constatar que o pequeno templo das artes de antanho (ao que me lembre, originalmente, com algo em torno de 300 lugares), destruído por um incêndio em 1997, tenha se transformado no fantástico espaço de hoje. Instalações bárbaras, mais de 900 assentos, palco maravilhoso e até fosso para orquestra.

E eu ali, visualizando Bethânia em "Cena Muda", anos 70, no tablado apertadinho, a platéia espremida, muitos sentados no chão. E ela já era uma super estrela, vinda de "Rosa dos Ventos", "Drama 3º Ato"...Em perspectiva, é quase inacreditável lembrar que, naquela infraestrutura basiquíssima, o denso espetáculo de MB tivesse se mantido ao longo de...um ano! De terça a domingo! Hoje, os shows do mainstream acontecem durante um final de semana, dois, no máximo, e olhe lá.

E que prazer estar num teatro de verdade, concebido para que, de fato, se aprecie o espetáculo em si. Sem nada daquele esquema atordoante de faturamento extra (bebidas, comidas, polaróides, fora os atrasos intermináveis).

Brinco que pareço uma agente virtual da Oi, pelo que escrevo aqui sobre os empreendimentos culturais da companhia. Mas quando os poucos espaços que temos nessa área são exterminados para se tornar...vocês sabem o que...e muitos outros vivem em estado de abandono, é muito bacana ver surgir na nossa cidade lugares assim. Bonitos, amplos, limpos, com alta tecnologia, programação interessante. Gosto de comentar sobre coisas bacanas.

Segundamente, voltando às Chicas, de quem fui assessora de imprensa durante um tempo, muito bom revê-las cantando e tocando, esplendidamente, como sempre, naquele teatrão, naquele palcão...Muito bom ir dormir com um barulho desse.

A foto é de Isadora Medella, em seu arrepiante e demolidor solo com "A Terceira Margem do Rio", música de Milton Nascimento e Caetano Veloso, inspirada em conto de Guimarães Rosa. Em não tendo a versão da Isa, fiquemos com a de Caetano em http://www.youtube.com/watch?v=OV_fZiTCpb8.

sábado, 31 de outubro de 2009

It don´t matter if he was black or white



Aconselhada pelas queridas Sandra Pêra e Marília, fui ver This is it – Michael Jackson. Confesso que, mesmo fãzaça (fui a São Paulo só para ver o show dele, já que não viria ao Rio), após toda aquela enxurrada de vídeos com MJ na TV, não me inclinaria a ver esse filme agora.

Mas as duas falavam com tal entusiasmo (S que tinha chorado, M que ia assistir mais cinco vezes) que encarei a sugestão, uma vez partindo delas, como uma ordem. No dia seguinte (ontem), lá estava eu no Leblon 1.

Que festa dos sentidos! MJ em seu domínio absurdo do conjunto, do todo do espetáculo. A precisão da voz e dos movimentos. A musicalidade extraordinária. A impressionante densidade do som, com banda tão enxuta. A assombrosa bateria. Os bailarinos que voam...

Indescritível. Imperdível. Também chorei, doce Pêra. Em I`ll be there. Obrigadíssima pela dica.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Flores! Flores!




Num dia triste de chuva
Foi minha irmã quem me chamou pra ver
Era um caminhão, era um caminhão
Carregado de botão de rosas
Eu fiquei maluca
Por flor tenho loucura, eu fiquei maluca
Saí
Quando voltei molhada
Com mais de dúzias de botão
Botei botão na sala, na mesa, na TV, no sofá
Na cama, no quarto, no chão, na penteadeira
Na cozinha, na geladeira, na varanda
E na janela era grande o barulho da chuva
Eu fiquei maluca

(linda música de Luis Capucho, na voz de Cássia Eller)


Que toda mulher gosta de rosas, a canção está aí mesmo a nos lembrar. É o segundo melhor presente que adoramos ganhar. Em primeiríssimo lugar, absoluto, estão os diamantes, claro, que ninguém é de carvão.

Sou alucinada por flores – quando recebo, é momento que me deixa, realmente, nervosa. E feliz, como com nenhum outro presente (já tenho tantos solitários, à maneira de Hebe Camargo, que uns vão fazendo companhia aos outros, se distraem entre si, e me liberam para me emocionar com mais orquídeas, colombianas, copos de leite...).

E não acredito que alguém nesse mundo, com sensibilidade grau 0,1, possa ter algo contra essa explosão de cores que a natureza tão prodigamente nos oferece.

Destarte, não consigo entender porque elas se encontram, invariavelmente, fora de todo e qualquer projeto de paisagismo urbano. Não estão nos parques, nas praças, nas entradas dos edifícios...

Se colocarmos alguém vendado na frente de um dos luxuosos prédios da Delfim Moreira e pedirmos que abra os olhos, certamente afirmará estar em uma região semi-árida. Abundam vegetações agrestes, até cactus (com todo o respeito a eles) despontam imponentes dos canteiros, onde estou sempre à cata de alguma delicadeza, uns tons de violeta, amarelo.

Gente, vasinhos nas janelas deixam lindos os prédios mais velhinhos, mais feinhos. Isso é tão comum lá fora...

Um ambiente, uma sala, com uma flor que seja, irradia e inspira vida, criação, renovação. Adoça a alma. Numa mesa para um jantar bacana, cheio de afeto, não é só comida e vinho que se harmonizam. Uma florzinha é o detalhe que muda tudo.

Vós, que sois síndicos, presidentes de associações de moradores e/ou tendes amigos na imprensa, valei-nos: clamemos por mais flores em nossos dias.

domingo, 18 de outubro de 2009

Existirmos, a que será mesmo que se destina?



Não digas: “o mundo é belo”.
Quando foi que viste o mundo?
Não digas: “o amor é triste”.
Que é que tu conheces do amor?
Não digas: “a vida é rápida”.
Como foi que mediste a vida?
Não digas: “eu sofro”.
Que é que dentro de ti és tu?
Que foi que te ensinaram
Que era sofrer?

(Cecília Meireles)


Ah, como foi que mediste a vida?...Sempre me intriga quando alguém declara, em tom de orgulho: "Tenho 40 (ou 51, 64, 79, 203) anos". E mais que depressa completa: "Muito bem vividos". Tenho para mim que não se vive bem ou mal (não falo pelo prisma material, por suposto): vive-se, simplesmente. O que já é coisa pra caramba, convenhamos. Bem e mal podem ser conceitos bastante relativos, subjetivos. Até porque estou convencida de que - salvo em casos de autossabotagem crônica - damos o melhor de nós em quaisquer dos momentos vivenciados. Ah, eu poderia ter feito melhor...Não, não poderia. Tanto que não o fiz. Naquelas dadas condições, com os recursos mentais, emocionais, psicológicos, espirituais e materiais, enfim, com o conjunto de circunstâncias específicas daquele instante, só fiz o que pude fazer. E foi o melhor, mesmo que impregnado de equívocos, sofrimentos, maluquices.

A tese não se destina a justificar a infinidade de erros cometidos ao longo do caminho. Mas para identificá-los - e tentar corrigi-los - existem a consciência e a disposição interior sincera de querer burilar a própria persona, intensificar a busca do que realmente importa. Culpas e arrependimentos por si só, sem ação que os convertam em luzes, nos levam nenhures. Antes (tentar reconstruir) tarde do que tarde demais. É uma luta feroz repelir a autocondenação, por inerente à cultura humana. Mas há que se travá-la, sob pena de sucumbirmos a sua sombra. Estagnante.

A impressão que me dá é de que com esse pequeno complemento - o "bem vividos" -, o ser, defrontado com a finitude, parece buscar desesperadamente a remissão por envelhecer na confirmação (para si? para os outros?) de uma pretensa vida "muito bem aproveitada".

Mas de que, afinal, está se falando com "aproveitar a vida"? Com esses "bem vividos"? Significarão que a criatura em questão torrou fortunas em cassinos transatlânticos? Teve todas as mulheres/homens do mundo? Acumulou um patrimônio financeiro sólido? Aprendeu oito línguas, sem contar o javanês? Moveu céus e terra no afã de saciar uma saudade que teimava em arder, carburar, por entender, enfim, que não adianta tentar tirar da cabeça o que não se consegue tirar do coração? Formou uma família de comercial de amaciante lavanda? Conheceu o Oriente Médio? Fez o Caminho de Compostela? Experimentou os esportes mais radicais? Esteve constantemente atento aos sinais de alegria e, sobretudo, de dor do outro? Velejou em ilhas paradisíacas? Dedicou os anos a sonegar o fisco? Amou com entrega absurda? Jantou todas as noites no Antiquarius? Reviu conceitos? Laborou em ações de responsabilidade social? Logrou ser o mais esperto entre seus pares? Lutou verdadeiramente por seus ideais - que expressão demodé, mais ainda que a própria demodé? Entendeu - e os fez - que amigos são o grande e inalienável bem da vida? Plantou uma árvore, escreveu um livro, teve ou adotou um filho?

Afinal, o que pretendem sofregamente sinalizar com isso? O fato é que, sem querer entrar em juízo de valor - e mais do que nele entrando -, quem eu consideraria capaz de contabilizar brilhantemente anos "bem vividos" nunca nem sequer ousou pronunciar tamanha temeridade. São os que, penso eu, vivem para entender, transformar e engrandecer a vida, em nosso planeta, nosso país, nossa cidade, nossos dias.

Bem sei que vós, que sois gentis, podeis, em socorro dessa gente, ponderar que o tal do "bem vividos" refere-se ao ponto de vista de quem fala. Ah, mas nesse caso, que eles façam a fineza de acrescentar tal apêndice ao final de suas declarações. Criaturas obtusas precisam de tudo explicado nos mínimos detalhes. Porque, solta, a expressão "bem vividos", para quem tem dificuldade de abstração como eu, significa, simples, e rigorosamente, nada.

Onde chegarei nessa busca por lapidar minha procura toda? Aqui: http://www.youtube.com/watch?v=lRGMJiB6O8o.



terça-feira, 6 de outubro de 2009

Leila Pinheiro & os Caruso



Caros,






Convidamos para a nova edição da


Revista Carioquice  



 
                                                                                   http://www.carioquice.com.br/

A capa é com João Moreira Salles (por Vera de Souza). Eu vou de irmãos Caruso (fotos de Marcelo Carnaval) e Leila Pinheiro (fotos de Adriana Lorette), ambas com links em Matérias Mais Recentes.

Temos também os saraus do Instituto Ricardo Cravo Albim (Kelly Nascimento), a história do Aeroporto Santos Dumont (Julia Santhiago), um perfil de Victor Biglione (por minha xará, Monica Ramalho) e o ensaio fotográfico Costa Azul do Rio (de Marcelo Carnaval).

Saudações cariocas, paulistas e paraenses.

domingo, 4 de outubro de 2009

Que mistérios tem Clarisse






Nesse momento de grande alegria para nós brasileiros, principalmente os cariocas, gostaria de enaltecer mais coisas belas que o país e o Rio têm. Hoje, vou de música.








Clarisse Grova, carioca,
é a maior cantora do Brasil.

Para mim. E para muitos que realmente entendem de música, o que não é o meu caso. Certa vez, escrevi para The Voice que, em verdade, não havia a melhor cantora (ou cantor) do Brasil. Nem o melhor médico. Nem o melhor desenhista, ou cabeleireiro, ou mecânico, ou jornalista. O que existe é um perfil de profissional que, a nossos olhos, chegam mais perto de nossos desejos. Nesta perspectiva, apesar de, evidentemente, admirar outras cantoras, Clarisse, à minha percepção, é a mais perfeita em timbre, afinação, extensão, dicção e...emoção.

O mundo da música foi desde sempre extraordinariamente presente em mim. Em casa, ouvíamos de tudo: de Elis a Dick Farney, de Martinho da Vila a Bach, de Yes a Roberto Carlos, de Tito Madi a Nina Simone, de Bethânia a Bizet. Meu pai, médico, era um apaixonado por música, sempre muito aberto a novidades, se interessando tanto pelo software quanto pelo hardware. Não sei quem entre os meus amigos ouvia som quadrifônico em suas residências. Eu ouvia. Isso agora é poeira, mas na era mesosóica em que adolesci, som quadrifônico - surround dos seventies - era moderno pra caramba. Poder ouvir os instrumentos isoladamente nas 4 caixinhas...Se não me engano, The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, foi o primeiro disco a utilizar este sistema de reprodução sonoro.

Lembro de uma tarde, na saída do curso Oxford, em Ipanema, em que fui numa loja de discos importados que havia se instalado em frente. Sim, sou da época em que os lançamentos internacionais levavam séculos para cruzar os oceanos. E aos que não tinham paciência para esperar tanto, só restava recorrer à importação. O rapaz da loja - pálido, cult -, quando me viu, mandou: "seu pai esteve aqui hoje e comprou o Curved Air". Curved Air ??? Pelas madeixas de Rick Wakeman, desta vez Dr. Sylvio havia se superado. Nem eu, aficionada por rock progressivo, fazia leve ideia do que se tratava. Cheguei em casa: "mas que história de Curved Air é essa???" Era um som estranhíssimo, progressivo com...violinos!

Enfim, tudo isso para dizer que, sem jamais ter tido uma única aula de teoria musical, cresci escutando do bom e do melhor, sem distinção de gênero ou nacionalidade. Ouvia música o tempo todo, comprava discos e via shows sem parar. Aquele mágico universo me formou - e encantou - a ponto de me levar a trabalhar durante um bom tempo em torno dele.

Hoje, sobretudo se comparado ao que fazia, ouço música com extrema parcimônia. Porque ela está, de forma massacrante, em todo lugar: no táxi, no carro e na casa dos amigos, nos elevadores, nas lojas, nos consultórios, nas praias, wherever. Virou barulho, não fruição. Musak not music. Interditaram o silêncio. Tão fundamental para que se escutem as sonoridades sublimes.

Dada à formação eclética, sigo, a depender do momento, adorando ouvir tanto os noturnos de Chopin quanto "Impossível acreditar que perdi você", com Jerry Adriani. Porque é a música, sempre ela, nos tocando em profundidade os sentidos, memórias, alegrias e dores.

E, quando quero encontrar sua expressão mais vigorosa, comovente, avassaladora, misteriosa, como abençoada força da natureza, não dá outra: é Clarisse Grova na veia. A voz mais bonita que existe. De uns tempos pra cá, também compondo o fino.

Por isso, queria destacar aqui a Oficina da Voz Clarisse Grova (http://oficinadavoz.ning.com/), favoritíssima desde o primeiro momento nesta padaria. Viajem na companhia de quem sabe tudo sobre esse inesgotável, fascinante, transcendental planeta de sons.

Viva o Rio! Viva a arte!


  Clarisse Grova