quinta-feira, 1 de abril de 2010

Giscard


Pra você
A luz do mundo
movendo as páginas desse seu extraordinário livro em construção
que leio há tempos, apaixonadamente.
Por vezes de volta a certas passagens:
a única refeição, à base de queijo e chocolate, derretida e escorrendo pela garrafa de vinho
dentro de uma cabine de trem cortando o verão da Itália
...e tudo era graça.
 
Por outras, ávida por desvelar os futuros desdobramentos dessa insondável aventura:
a vida
ávida pela vida, a vida, a vida ávida.

Pra você
A poesia do mundo
as palavras mais lindas, que impulsionam a roda incansável do saber
e amparam os movimentos árduos e tantas vezes doloridos
da busca, do conhecer-se.
Tardes calmas e conforto de amor sincero,
águas limpas e céu de contemplação.
E logo chegam cenas de chafés e mergulhos mornos na Bahia,
o frescor de uma trajetória a se contar.

Pra você, a música do mundo
flutuação no espaço e no tempo quando tudo é mistério,
vazio e solidão,
na luta absurda de enxergar o outro.

Desejo noites quentes e abandono de amor profundo,
no silêncio único e entorpecente da entrega absoluta.

Pra você, a pintura do mundo
em seus desenhos impressionistas de sublimação e êxtase.
A quentura incomparável de amor de verdade,
com cheiro de temporal que renova a terra e o ar.
Amor que protege, afaga e...liberta!
na perspectiva de um caminhar
onde se respira sempre em suspensão para o que há de vir.

Peço iluminação para o nosso amor.
Te abraço hoje, sempre.
Com admiração absurda e afeto transcendente.
 
Pra você, "Trem azul" (Lô Borges e Ronaldo Bastos), na voz de Elis.

terça-feira, 30 de março de 2010

Simplesmente


Fui ver "Simplesmente eu, Clarice Lispector" (com Beth Goulart). Senti uma saudade imensa de Bethânia.

Beth Goulart, ao final da peça, fala para o público palavras tão delicadas, no sentido que tenhamos um cuidado extremo em relação ao silêncio (externo e, principalmente, interno), para ouvirmos a nós próprios e ao outro.

Ah, o silêncio. Minha companhia fundamental.
 
Deixo aqui esse trecho do livro "Sopro de vida", que não está na peça, mas é recorrente para mim:

"Luto não contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos. Mas luto com extrema ansiedade por uma novidade de espírito".

E, também, a deslumbrante "Tarde" (Milton Nascimento e Marcio Borges), nessa versão especialíssima com Milton e a participação de Wayne Shorter.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Lembra


Lua adversa
                                                                 (Cecília Meireles)
 
Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha
 
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Linda, linda: "Lembra de mim" (Ivan Lins e Vitor Martins)

terça-feira, 23 de março de 2010

Tão longe dessa estrela


Eu
                                                                    (Fátima Guedes)



Eu sou uma voz, eu sou uma figura
Sou o meu sonho de o ver realizado
Hoje eu descobri o mais incrível
Sou quase inacessível
Estou tão longe dessa estrela

E um dia tem muitas horas
Muitas horas, muitas horas
Viver é esbarrar com elas e senti-las
No quarto, no espelho, no colchão
A minha solidão
Não deixa que elas me toquem
 
Estrela não tem luz própria
Quase ninguém sabe disso
Eu sinto muita saudade
Do brilho dos meus amigos
Sinto tanta falta de você
Se eu pudesse querer
Queria você comigo

Essa linda canção ("Eu") na voz da autora e de Leonel Laterza

domingo, 21 de março de 2010

Bate é na memória

eu quis ser seu par
não deu
somos primos

quis ser só pra você
seu ímpar
não deu
somos pares
                                                                  (Marco Antonio Figueiredo)


"Memória da pele" (João Bosco-Wally Salomão), na voz de Bethânia.

terça-feira, 16 de março de 2010

O segredo da tolerância

Foto: Ana Paula Rêgo - (Show Morro da Urca - março)


Fui ver "O segredo dos seus olhos" (de Juan José Campanella), no Estação Ipanema. Tudo maravilhoso: direção, interpretação, roteiro, diálogos...e que final!

Vamos, então, falar de tolerância entre nós dois. Entre nós todos.

Tolerância (Ana Carolina e Antonio Villeroy)
http://www.youtube.com/watch?v=yW3VBnvosSI

Como água no deserto
Procurei seu passo incerto
Pra me aproximar a tempo

O seu código de guerra
E a certeza que te cerca
Me fazem ficar atento

Não me importa a sua crença
Eu quero a diferença
Que me faz te olhar de frente
Pra falar de tolerância
E acabar com essa distância entre nós dois

Deixa eu te levar
Não há razão e nem motivo pra explicar
Que eu te completo e que você vai me bastar
Eu sei, tô bem certo de que você vai gostar
Você vai gostar

Como lava no oceano
Um esforço sobre-humano
Pra recomeçar do zero

Se pareço ainda estranho
Se não sou do seu rebanho
E ainda assim te quero

É que o amor é soberano
E supera todo engano
Sem jamais perder o elo

E é por isso que te espero
E já sinto a mesma coisa em seu olhar

domingo, 14 de março de 2010

Fui ver, no Kinoplex Leblon, "A single man" (de Tom Ford) que, sei lá porquê, recebeu aqui o mui inventivo título..."Direito de amar". Cara, qual o problema de manter o original? Que cafonice, remete àquelas radionovelas antiquérrimas, tipo "O direito de nascer". Na contramão da elegância toda que é o filme, belíssimo, com uma abertura emocionante, luz linda e trilha sonora maravilhosa.



   
 





Vi, também, "Coração louco" (Scott Cooper), este traduzido ao pé da letra ("Crazy heart"). Bem bonito.



 
 
 
 
Deixo aqui o lindo poema que ganhei - "Bebido o luar" -, de autoria da poeta porguesa Sophia de Mello Breyner Andresen:

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

   


As fotos feitas do casarão no Jardim Botânico que hospeda a exposição "Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome".


 
 
 
 
 
 
E "My Funny Valentine", na voz inebriante de Chet Baker:
 

quarta-feira, 10 de março de 2010

Peixinho Chanel nº 5


Apetitosa a foto acima, não? Mas está faltando um prato. Fui almoçar no Sushi Leblon. Pedi como entrada lulas grelhadas. Não tinha lula. Escolhi, então, atum com molho picante. Zero de atum. A terceira tentativa assinalou, entre outras opções, fatias de peixe branco, azeite trufado e flor de sal. Que chegou à mesa exalando o inconfundível cheiro de peixe...hum...ou vencidíssimo ou fruto de um raro cruzamento com gambá.

Provamos o acepipe, à guisa de que não restasse a menor dúvida de que o alimento estava, de fato, estragado. Tese, como esperado, confirmadíssima. Falei com o garçom, que atribuiu o miasma à presença do azeite trufado. E com aquele semblante irônico, como se não fôssemos capazes de distinguir entre uma coisa e outra - um peixe deteriorado e um suposto aroma tão requintado que fugia a nosso destreinado paladar.

Pedi, polidamente, para ele levar as lâminas do animal em decomposição ao chef, que, lá de dentro, atestou que estava tudo certo com o prato. Minha vontade foi me levantar da mesa e solicitar que o tal chef mastigasse (e engolisse), na minha frente, a rara iguaria, pelo visto, reconhecida apenas por papilas gustativas mais sofisticadas do que as nossas.

Mas, em consideração a uma super advogada canadense - que, em seu último dia no Brasil, havia pedido para o almoço acontecer num restaurante japonês (minha sugestão era outra) -, preferi, simples e educadamente, pedir la addition e migrar para outro endereço gastronômico.

Só um adendo: o atum (na foto), que, inicialmente, estava em falta, "chegou" magicamente à casa. E à nossa mesa. Devidamente deixado em grande parte no prato.

A conta chegou, sem a presença de nenhum representante do restaurante que viesse, ao menos, tentar saber o que estava acontecendo. A notícia dada pelo garçom de que a iguaria não compreendida em toda a sua refinada explosão de aromas não seria cobrada foi revestida de um tom que explicitava estar a casa a fazer um favor, e não mais do que sua obrigação.

Não foi a primeira vez que, em restaurantes ditos bacanas, tentaram me convencer que estragado seria sinônimo de algo tão espetacularmente refinado a que os comensais jamais atingiriam. Empáfia, sem dúvida, é o ingrediente mais contaminador que um restaurante pode oferecer aos clientes.

Para desanuviar o espírito, fotografei as flores lindas na rua Dias Ferreira.
 
   
E deixo esse trecho de Museu do ciúme, do livro Chão de terra, de Rosiska de Oliveira.




O ciúme tem cheiro que machuca e fundo musical que faz chorar. É um grande autor de romances de terceira, capaz de inventar uma vida inteira, personagens, tirados do nada, que se movimentam como marionetes, a quem o enciumado dita as falas e sobretudo as respostas, lá onde se confessa a traição.







O ciúme é um mundo à parte, um inferno privado onde alguém se instala para viver uma vida de voyeur. Esse mundo tem uma lógica própria, perversa, em que a relação ameaçada pelo desgaste e pelo tédio reacende na suspeita e no ódio".  

segunda-feira, 8 de março de 2010

Saturday night fever

 Pau ferro - árvore no Museu Chácara do Céu

A programação de rua no sábado começou na Travessa do Leblon, porque queria comprar um novo Partimpim 2 para dar de presente. Aproveitei para garantir uma cota de mimos para mim também: os livros "Chão de terra" (de Rosiska de Oliveira), a nova e deslumbrante edição de "Alice no país das maravilhas" (com tradução de Nicolau Sevcenko e ilustrações de Luiz Zerbini) e o CD "Noturno Copacabana" (de Guinga), que traz uma música que eu estava procurando na internet para postar aqui (a sublime e doce "Senhorinha", com letra de Paulo César Pinheiro).

Achei um vídeo em que Guinga - esse, cuja sensibilidade musical é indizível - conta, de forma emocionante, como nasceu essa levitante canção, aqui interpretada por ele e a linda Zezé Gonzaga.



Na sequência, finalmente consegui ver a exposição de Cildo Meireles no Museu da Chácara do Céu, em Santa Teresa.  


 
 
 
 
 
 
 
 
Na descida, uma parada na rua do Lavradio, onde, como em todo primeiro sábado do mês, corria solta a feirinha. Numa mesinha de calçada do botequim Informal, enquanto me dedicava a um cachorro quente incrementado com mostarda preta e uma diferente (e ótima) pasta de pepino adocicada, esquadrinhava a paisagem, me convencendo de que os timbres escuros que manchavam o céu já não me renderiam boas fotos. Então, um raio, depois outro, mais outro...Falei: vamos embora!

Era por volta de cinco da tarde. Não houve tempo nem de pedir a conta. Debaixo do temporal, o pessoal que ocupava as mesinhas do lado de fora do bar (assim como os donos das barraquinhas da feira) evaporou na atmosfera. Nós, um grupo de 7, tratamos de nos aninhar sob o toldo do estabelecimento, quando o gerente bradou: "vamos fechar a porta, porque a água vai entrar aqui".

Incrédula de que, com apenas alguns minutos de aguaceiro, ele poderia decretar que não só a rua iria transbordar como invadir boteco adentro (uma vez que se situa em patamar acima do nível do logradouro), quando vi, estava sentada na escada entre os dois pisos junto com a galera - o único espaço livre de que dispúnhamos. Que sorte! Em pouco tempo, assistia desse que eu já considerava um camarote de primeira classe, seco e seguro, com direito a chope, as águas avançando com vontade no primeiro piso do bar, em ondas escuras que expunham com clarezas líquidas e sólidas a maneira como cuidamos de nossa cidade.

Rua (ou rio) do Lavradio

Impossível não relacionar à cena inquietante as catástrofes da natureza tão mais apavorantes que estamos vendo diariamente no mundo todo. Do meu degrau, contudo, espreitava pelas frestas do corrimão o desenvolver de cenas de um microcosmo, por força das circuntâncias, obrigado a ser aquele, deslocando meu olhar de mesa em mesa. Aparentemente, os que estavam no andar de baixo, com água imunda pelas canelas, assemelhavam-se a estar num cruzeiro marítimo em que alguma espuma, fortuitamente, molhara o convés.

Numa delas, mulheres em pé nas cadeiras, dançavam ao som de sambas que iam improvisando como se não houvesse amanhã.

Em outra, onde parecia celebrar-se um aniversário, havia um casal de 20 e poucos anos em franca desarmonia. Ele, um garoto bonito, que insistia em continuar ali bebendo - embora já bem alterado, sem os sapatos, as meias encharcadas naquele rio encorpado de detritos. Nela, tudo era mais pesado e devastador do que a tempestade lá fora. Tentava a todo custo levar o menino de lindos cabelos pretos para casa. Houve um momento de ternura entre os dois, em que ela, tão novinha, era mais mãe do que mulher dele.

Imaginei que essa situação de conflito se suceda noite após noite. Na mesa, havia duas mães com seus bebês. Logo intuí também que ela, olhando para aquelas crianças, desejasse ter a sua com o tal rapaz bonito, e levar uma vida tranquila em família.

Como que chacoalhada por um pensamento que me alertava que eu não tinha nada a ver com a vida alheia e que tinha limite a profissão repórter, desviei minha atenção daquele frame. Por fim, lá pela meia-noite, conseguimos descer para uma mesa, porque alguns clientes haviam ido embora mesmo na enxurrada.

Fiquei em frente à mesa do tal menino. E lá, já não estava a mulher dele. Ele havia preferido permanecer por lá, em companhias, digamos, mais animadas. Imaginei aquela menina em casa, a esperar por ele, na escuridão do quarto. Aflita, sem saber se iria voltar. Pronto, lá estava eu a entabular fabulações sobre a vida do próximo.

Resumo: era uma da manhã quando pudemos, por fim, deixar o restaurante com o baixar das águas.

Diante do narrado, não foi possível dar à Mimi, que comemorava 10 anos de vida no Clube Marimbás àquela tarde, o disquinho da Calcanhotto. Mas desejo a você, minha amiguinha, o construir de seus sonhos numa cidade limpa e cada vez mais bela, num país que respeite direitos e deveres e num mundo que, afinal, se irmane.

                                                     
      Parque das Ruínas

quinta-feira, 4 de março de 2010

Ilusão à toa


Ah, Johnny Alf is gone...

Deixo essa linda canção dele, que há tempos vinha pensando em postar aqui.

"Ilusão à toa", com Gal & Elis.
http://letras.terra.com.br/gal-costa/263557/

Olha, somente um dia
Longe dos teus olhos
Trouxe a saudade do amor tão perto
E o mundo inteiro fez-se tão tristonho

Mas embora agora eu te tenha perto
Eu acho graça do meu pensamento
A conduzir o nosso amor discreto

Sim, amor discreto pra uma só pessoa
Pois nem de leve sabes que eu te quero
E me apraz essa ilusão à toa

terça-feira, 2 de março de 2010

Apenas um sonho

Leblon, segunda

Revi, na TV, "Foi apenas um sonho" (Sam Mendes), a que já havia assistido no cinema no início do ano passado. Denso, forte, triste. Kate Winslet, magnífica. "É preciso coragem para viver a vida que você quer", diz sua personagem.  

Imediatamente, estabeleci uma ponte entre o filme e a coluna de Martha Medeiros no Globo domingo passado, intitulada "E se tivesse sido diferente?"

Escreve ela: "É comum pensarmos que, ao ficarmos parados no mesmo lugar, sem agir, sem mudar nada, estamos assegurando um destino tranquilo. Engessados na mesma situação, é como se estivéssemos protegidos de qualquer possível ebolição que nos inquiete. Não deixa de ser estratégia, mas falta combinar com o resto da população. As pessoas que nos cercam sempre interferirão no nosso destino. Se dermos uma guinada brusca ou permanecermos na rotina, tanto faz: o mundo se encarregará de trocar as peças de lugar nesse imenso tabuleiro chamado dia a dia".

Gosto muito da Martha. Não é fácil traduzir um pensamento evidentemente sofisticado - que, em tese requereria um nível maior de aprofundamento - numa linguagem acessível ao arco de leitores do Globo. E ela consegue isso, numa escrita fluente, bonita, reflexiva, sem que caia nas polarizações rebuscamento x simplificação da linguagem.

Mais adiante, ela conclui: "Algumas vidas até podem ser tristes, outras são desperdiçadas, mas, num sentido mais absoluto, não existe vida errada".

Dentro do clima melancólico e chuvoso, a belíssima "Canto triste" (Edu Lobo e Vinicius de Moraes), com Edu e Sergio Godinho.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Vivement dimanche


Azul Marinho, domingo 

"O amor é o haver-lugar" (Reni Adriano).

"Todo leitor é um ficcionista que reescreve o que lê. Ler é aceitar, a cada linha, o que dela não se vê. A linha se estende ao longe, presa a margens que nunca veremos. Cada palavra se sustenta em feridas que nos escapam para sempre" (José Castello).


A letra linda  de "É o que me interessa" (Lenine):

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Gangorra cultural da semana


Finalmente, li "Leite derramado", de Chico Buarque. Iniciei a leitura no final do ano passado e...bem, o que fui e voltei com ele da praia não foi brincadeira. Sem abri-lo novamente. Nunca um livro meu passeou tanto. No que acho que ele deve ter achado ótimo: melhor pegar um praião de sol e mares lindos do que ficar espremido entre outros tantos colegas abafados na minha estante. Pelo menos para mim, não foi um daqueles livros eletrizantes em que se lê de uma tacada só. Nesse ínterim, comecei - e concluí - a leitura de outros tantos. Enfim, não sei ao certo o que dizer sobre ele.

Assisti a "Nova York, eu te amo", na Sala Laura Alvim. Muito, muito legal. Final lindo. 








 
 
 
  E o sábado foi dedicado a exposições.

No CCBB:


“Roteiro amarrado”, reunindo trabalhos de arte eletrônica de Eder Santos.

"Parece verdade", com 50 imagens do fotógrafo Caio Reisewitz. Lindas.

"Dobros", da artista plástica Márcia Pestore. Chapas imensas de aço inoxidável refletem imagens distorcidas do espectador e do espaço.  


Na Casa França-Brasil:

Iole de Freitas - Instalação composta por placas de policarbonato retorcidas, sustentadas no alto por tubos de aço.






 
 
 
 
 
No Centro Cultural Correios:

"Carlos Scliar - Perfil e trajetória" - A exposição reúne 80 obras - entre pinturas, gravuras, serigrafias, desenhos e esculturas e objetos - para traçar um panorama dos mais de 60 anos de carreira do artista.

Voando para Santa Teresa, ainda tentei ver "Os amigos da gravura 2010 - Cildo Meireles", no Museu da Chácara do Céu. Mas os portões haviam acabado de fechar. Para não perder a viagem, a ideia foi almoçar no restaurante Aprazível. Debalde: mesa para 2, só esperando 25 minutos. No way.

Então, na descida, a pedida foi o velho e bom Bar Lagoa - bife à milanesa com salada de batatas. Ponto quente bonzão.

Ah, e trouxe para casa mais um livrinho: "Práticas preliminares do budismo vajrayana" (por Chagdud Khadro).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Carta d´Itália


William, nosso amado,

Quando precisaste cessar nossa correspondência, falavas, exatamente, desses abalos sísmicos que investem sobre as almas indômitas que se lançam com desassombro nas espirais do mundo. E se esquecem que, de quando em quando, são necessárias acomodações até mesmo no centro da terra.

Não é outro teu labirinto, nosso adorado – nisso te consomes – que fazer? O privilegiado clube da entrega é caro, caríssimo. Bota caro nisso. E poucos podem ou estão dispostos a pagar seu preço acachapante. De seus frequentadores, tão intensamente se cobra que a maior parte os deixa, celeremente, partindo para agremiações muito mais em conta.

Como culpá-los? Afinal, convenhamos, caminhar na superfície d´água, em que é possível medir com clareza onde tocam nossos pés, é muito diferente do que mergulhar no mar profundo, em que tudo é imprecisão e incerteza.

Claro fique que sempre há tempo de reconsideramos os custos-benefícios de conviver nesse fechado círculo, e migrar para assembléias de paisagens bem mais amenas, confortáveis e seguras. E aí te acautela, te reguarda, te recolhe às conchas que – suponhas - te defendam do que há de vir.

Contudo, nosso irmão, se intencionas insistir como um fiel associado dessa obstinada corporação dos que se entregam, aceita sem fraquejar suas cláusulas, abraça com ardor seus fundamentos e segue teu caminho de desbravamento. A causa - e por ventura não a atestas? - é nobilíssima. Ah, e não esquece que teu trabalho, a exemplo de todos no grupo, é o de arregimentar mais e mais integrantes. De 1595 para cá, a debandada tem sido geral. Eles não sabem o que andaram perdendo...

De nossa parte, lembramos que não foi nada fácil a decisão de nos tornar sócios-fundadores desse exigente, mas adorável, clubinho. Aproveitamos para mandar foto para te emocionares, como de hábito, com nossa sede, em Verona.

PS: Em retribuição à música esplêndida que nos ofereceu, o presenteamos com “Devaneio”, de Jorge Vercillo.


Estamos ou não atualizados?

Com afeto,

Julieta e Romeu.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Carta da libertação (para Julieta e Romeu)



Minha querida, meu querido,

Estudo minuciosamente os cabos da minha memória numa busca dramática para voltar a conectá-los à configuração-padrão em que se encontravam antes. Antes de alguém atravessar a minha vida como um avião numa cumulus nimbus.

Por mais que as aulas na universidade hoje fluam em modus piloto automático, elas, por sorte, ainda constituem a base de sustentação mínima e necessária a que não sobrevenha um desparafusamento completo dos pinos de uma estrutura que, diga-se de passagem, nunca foi lá essas coisas: minha cachola, como bem sabeis.

Pelo menos, enquanto discorro sobre Adam Smith, Keynes e cia. para uma massa sem rostos de futuros doutores, minha zona mental arraiga-se a essa transmissão burocrática e encadeada de teorias, como forma de proteger-se das faixas avassaladoras que teimam em nela ingressar – e durar.

O problema é que aqui, já dentro do carro, dirigindo em silêncio na volta para casa, o compressor centrífugo reaviva-se com disposição intensificada, como a querer compensar o longo horário comercial em que precisou manter-se represado. E, aí, minha cara, meu caro, sai de baixo, porque não há doutrina econômica nesse mundo capaz de conter a irracional explosão que deflagra a reabertura dessas comportas.

Saudade do tempo em que orientar uma tese acadêmica era só orientar uma tese acadêmica. E não essa prensagem absurda das funções cognitivas na tentativa patética de extrair um grau de concentração que, francamente, não há. À maneira de se espremer azeitonas para engarrafar óleo virgem, mal comparando. Saudade de uma vida normal, vamos dizer assim.

O que é vida normal? Ora, vida normal é quando a pessoa acorda...ou melhor, recomeçando, a pessoa dorme – toda noite e a noite inteira -, acorda, toma café, sai para trabalhar, trabalha, volta para casa, janta, namora, ou janta fora, ou vai ao cinema, ou sei lá o que. E nos finais de semana toca para a praia, para a locadora de vídeos, para o Maracanã, viaja, dá pipoca a macaco, enfim, qualquer coisa em que se acha graça quando nos alinhamos às condições regulares de temperatura e pressão.

Até onde eu saiba, minha amiga, meu amigo, vida normal é mais ou menos isso, com um ou outro toque de acontecimento extraordinário, o que faz parte. Mas não esse torvelinho em que não se cabe direito dentro do próprio corpo, e a alma parece ejetar-se desencontradamente em movimentos involuntários para além das regiões limítrofes ao ponderável. Afinal, nada mais justo que ela, alma, lute a todo custo para romper o confinamento abusivo a que se vê, a sua revelia e a contragosto, submetida.

E, assim, minha garota, meu rapaz, vamos tateando as camadas fronteiriças da escuridão, sendo noite ou dia, que, camuflados, mal se distinguem nas sombras das paredes. A pessoa começa a variar, falar sozinha (há barulho de porta de elevador se abrindo e não sei se é você – e não, não é). E, mais grave, dá para sofrer alucinações (pois te vejo entrando no mar, sorrindo nos restaurantes, lendo na poltrona, saindo do banho, teu corpo lindo e em abandono na cama).

Prezada, prezado, mas de que mesmo falava esse professor versado em amor ausente? Amor profundo e - com que onipresença! – ausente... O fato é que agora, já em casa, sinto, mas precisamos interromper a comunicação. Alguém me chama no quarto. Ah, sim, já ia me esquecendo: como se não bastasse, nesse estado de saturação dos sentidos, também se ouvem vozes.

Com doçura,

William.

PS: Estou de tênis novos, comprados no Stratford-on-Avon-Shopping Center.

E deixo-vos essa preciosidade:

"Everytime we say goodbye" (Cole Porter), com Simply Red.


 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Ele, ele


No livro sobre as histórias das canções de Chico Buarque (Wagner Homem), há um artigo lindo de Carlos Drummond de Andrade em torno de "A Banda", que acabara de vencer o Festival da Canção de 66. Segue um trecho:

"O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo e presenciando...(...)...Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam".

Tocante também é como o próprio Chico Buarque fala a respeito da criação de "Futuros amantes". Diz ele: "Eu estava mexendo no violão, comecei a fazer a melodia, e a primeira coisa que apareceu foi exatamente cidade submersa, isolada de tudo...Porque cantarolando parecia cidade submersa, parecia que a música queria dizer isso. Aí eu coloquei esses escafandristas e esse amor adiado, esse amor que fica pra sempre. Essa ideia do amor que existe como algo que pode ser aproveitado mais tarde, que não se desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se os milênios, e aquele amor vai ficar até debaixo d´água".

E, para não fugir ao poeta, a arrepiante "Você, você" (em parceria com Guinga) - que, incrivelmente, só vim a ouvir pela primeira vez hoje -, com Guinga e Marcê Porena, em

Me sopre novamente as canções
Com que você me engana
Que blusa você, com o seu cheiro
Deixou na minha cama?
Você, quando não dorme
Quem é que você chama?

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Salve o Salgueiro!




Que maravilha ligar a TV às 2 da manhã para ver o desfile do Salgueiro e constatar que o enredo era sobre...livros!!!

Mesmo se eu já não torcesse pela escola, daria o bi para ela com louvor.

Em tempos de escapismos rudes às filigranas do espírito, temos o pensamento de Sêneca: "Foges em companhia de ti próprio: é de alma que precisas de mudar, não de clima."

E a linda "A bela e a fera", de Chico Buarque e Edu Lobo, na voz de ambos.