domingo, 28 de fevereiro de 2010

Vivement dimanche


Azul Marinho, domingo 

"O amor é o haver-lugar" (Reni Adriano).

"Todo leitor é um ficcionista que reescreve o que lê. Ler é aceitar, a cada linha, o que dela não se vê. A linha se estende ao longe, presa a margens que nunca veremos. Cada palavra se sustenta em feridas que nos escapam para sempre" (José Castello).


A letra linda  de "É o que me interessa" (Lenine):

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Gangorra cultural da semana


Finalmente, li "Leite derramado", de Chico Buarque. Iniciei a leitura no final do ano passado e...bem, o que fui e voltei com ele da praia não foi brincadeira. Sem abri-lo novamente. Nunca um livro meu passeou tanto. No que acho que ele deve ter achado ótimo: melhor pegar um praião de sol e mares lindos do que ficar espremido entre outros tantos colegas abafados na minha estante. Pelo menos para mim, não foi um daqueles livros eletrizantes em que se lê de uma tacada só. Nesse ínterim, comecei - e concluí - a leitura de outros tantos. Enfim, não sei ao certo o que dizer sobre ele.

Assisti a "Nova York, eu te amo", na Sala Laura Alvim. Muito, muito legal. Final lindo. 








 
 
 
  E o sábado foi dedicado a exposições.

No CCBB:


“Roteiro amarrado”, reunindo trabalhos de arte eletrônica de Eder Santos.

"Parece verdade", com 50 imagens do fotógrafo Caio Reisewitz. Lindas.

"Dobros", da artista plástica Márcia Pestore. Chapas imensas de aço inoxidável refletem imagens distorcidas do espectador e do espaço.  


Na Casa França-Brasil:

Iole de Freitas - Instalação composta por placas de policarbonato retorcidas, sustentadas no alto por tubos de aço.






 
 
 
 
 
No Centro Cultural Correios:

"Carlos Scliar - Perfil e trajetória" - A exposição reúne 80 obras - entre pinturas, gravuras, serigrafias, desenhos e esculturas e objetos - para traçar um panorama dos mais de 60 anos de carreira do artista.

Voando para Santa Teresa, ainda tentei ver "Os amigos da gravura 2010 - Cildo Meireles", no Museu da Chácara do Céu. Mas os portões haviam acabado de fechar. Para não perder a viagem, a ideia foi almoçar no restaurante Aprazível. Debalde: mesa para 2, só esperando 25 minutos. No way.

Então, na descida, a pedida foi o velho e bom Bar Lagoa - bife à milanesa com salada de batatas. Ponto quente bonzão.

Ah, e trouxe para casa mais um livrinho: "Práticas preliminares do budismo vajrayana" (por Chagdud Khadro).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Carta d´Itália


William, nosso amado,

Quando precisaste cessar nossa correspondência, falavas, exatamente, desses abalos sísmicos que investem sobre as almas indômitas que se lançam com desassombro nas espirais do mundo. E se esquecem que, de quando em quando, são necessárias acomodações até mesmo no centro da terra.

Não é outro teu labirinto, nosso adorado – nisso te consomes – que fazer? O privilegiado clube da entrega é caro, caríssimo. Bota caro nisso. E poucos podem ou estão dispostos a pagar seu preço acachapante. De seus frequentadores, tão intensamente se cobra que a maior parte os deixa, celeremente, partindo para agremiações muito mais em conta.

Como culpá-los? Afinal, convenhamos, caminhar na superfície d´água, em que é possível medir com clareza onde tocam nossos pés, é muito diferente do que mergulhar no mar profundo, em que tudo é imprecisão e incerteza.

Claro fique que sempre há tempo de reconsideramos os custos-benefícios de conviver nesse fechado círculo, e migrar para assembléias de paisagens bem mais amenas, confortáveis e seguras. E aí te acautela, te reguarda, te recolhe às conchas que – suponhas - te defendam do que há de vir.

Contudo, nosso irmão, se intencionas insistir como um fiel associado dessa obstinada corporação dos que se entregam, aceita sem fraquejar suas cláusulas, abraça com ardor seus fundamentos e segue teu caminho de desbravamento. A causa - e por ventura não a atestas? - é nobilíssima. Ah, e não esquece que teu trabalho, a exemplo de todos no grupo, é o de arregimentar mais e mais integrantes. De 1595 para cá, a debandada tem sido geral. Eles não sabem o que andaram perdendo...

De nossa parte, lembramos que não foi nada fácil a decisão de nos tornar sócios-fundadores desse exigente, mas adorável, clubinho. Aproveitamos para mandar foto para te emocionares, como de hábito, com nossa sede, em Verona.

PS: Em retribuição à música esplêndida que nos ofereceu, o presenteamos com “Devaneio”, de Jorge Vercillo.


Estamos ou não atualizados?

Com afeto,

Julieta e Romeu.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Carta da libertação (para Julieta e Romeu)



Minha querida, meu querido,

Estudo minuciosamente os cabos da minha memória numa busca dramática para voltar a conectá-los à configuração-padrão em que se encontravam antes. Antes de alguém atravessar a minha vida como um avião numa cumulus nimbus.

Por mais que as aulas na universidade hoje fluam em modus piloto automático, elas, por sorte, ainda constituem a base de sustentação mínima e necessária a que não sobrevenha um desparafusamento completo dos pinos de uma estrutura que, diga-se de passagem, nunca foi lá essas coisas: minha cachola, como bem sabeis.

Pelo menos, enquanto discorro sobre Adam Smith, Keynes e cia. para uma massa sem rostos de futuros doutores, minha zona mental arraiga-se a essa transmissão burocrática e encadeada de teorias, como forma de proteger-se das faixas avassaladoras que teimam em nela ingressar – e durar.

O problema é que aqui, já dentro do carro, dirigindo em silêncio na volta para casa, o compressor centrífugo reaviva-se com disposição intensificada, como a querer compensar o longo horário comercial em que precisou manter-se represado. E, aí, minha cara, meu caro, sai de baixo, porque não há doutrina econômica nesse mundo capaz de conter a irracional explosão que deflagra a reabertura dessas comportas.

Saudade do tempo em que orientar uma tese acadêmica era só orientar uma tese acadêmica. E não essa prensagem absurda das funções cognitivas na tentativa patética de extrair um grau de concentração que, francamente, não há. À maneira de se espremer azeitonas para engarrafar óleo virgem, mal comparando. Saudade de uma vida normal, vamos dizer assim.

O que é vida normal? Ora, vida normal é quando a pessoa acorda...ou melhor, recomeçando, a pessoa dorme – toda noite e a noite inteira -, acorda, toma café, sai para trabalhar, trabalha, volta para casa, janta, namora, ou janta fora, ou vai ao cinema, ou sei lá o que. E nos finais de semana toca para a praia, para a locadora de vídeos, para o Maracanã, viaja, dá pipoca a macaco, enfim, qualquer coisa em que se acha graça quando nos alinhamos às condições regulares de temperatura e pressão.

Até onde eu saiba, minha amiga, meu amigo, vida normal é mais ou menos isso, com um ou outro toque de acontecimento extraordinário, o que faz parte. Mas não esse torvelinho em que não se cabe direito dentro do próprio corpo, e a alma parece ejetar-se desencontradamente em movimentos involuntários para além das regiões limítrofes ao ponderável. Afinal, nada mais justo que ela, alma, lute a todo custo para romper o confinamento abusivo a que se vê, a sua revelia e a contragosto, submetida.

E, assim, minha garota, meu rapaz, vamos tateando as camadas fronteiriças da escuridão, sendo noite ou dia, que, camuflados, mal se distinguem nas sombras das paredes. A pessoa começa a variar, falar sozinha (há barulho de porta de elevador se abrindo e não sei se é você – e não, não é). E, mais grave, dá para sofrer alucinações (pois te vejo entrando no mar, sorrindo nos restaurantes, lendo na poltrona, saindo do banho, teu corpo lindo e em abandono na cama).

Prezada, prezado, mas de que mesmo falava esse professor versado em amor ausente? Amor profundo e - com que onipresença! – ausente... O fato é que agora, já em casa, sinto, mas precisamos interromper a comunicação. Alguém me chama no quarto. Ah, sim, já ia me esquecendo: como se não bastasse, nesse estado de saturação dos sentidos, também se ouvem vozes.

Com doçura,

William.

PS: Estou de tênis novos, comprados no Stratford-on-Avon-Shopping Center.

E deixo-vos essa preciosidade:

"Everytime we say goodbye" (Cole Porter), com Simply Red.


 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Ele, ele


No livro sobre as histórias das canções de Chico Buarque (Wagner Homem), há um artigo lindo de Carlos Drummond de Andrade em torno de "A Banda", que acabara de vencer o Festival da Canção de 66. Segue um trecho:

"O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo e presenciando...(...)...Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam".

Tocante também é como o próprio Chico Buarque fala a respeito da criação de "Futuros amantes". Diz ele: "Eu estava mexendo no violão, comecei a fazer a melodia, e a primeira coisa que apareceu foi exatamente cidade submersa, isolada de tudo...Porque cantarolando parecia cidade submersa, parecia que a música queria dizer isso. Aí eu coloquei esses escafandristas e esse amor adiado, esse amor que fica pra sempre. Essa ideia do amor que existe como algo que pode ser aproveitado mais tarde, que não se desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se os milênios, e aquele amor vai ficar até debaixo d´água".

E, para não fugir ao poeta, a arrepiante "Você, você" (em parceria com Guinga) - que, incrivelmente, só vim a ouvir pela primeira vez hoje -, com Guinga e Marcê Porena, em

Me sopre novamente as canções
Com que você me engana
Que blusa você, com o seu cheiro
Deixou na minha cama?
Você, quando não dorme
Quem é que você chama?

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Salve o Salgueiro!




Que maravilha ligar a TV às 2 da manhã para ver o desfile do Salgueiro e constatar que o enredo era sobre...livros!!!

Mesmo se eu já não torcesse pela escola, daria o bi para ela com louvor.

Em tempos de escapismos rudes às filigranas do espírito, temos o pensamento de Sêneca: "Foges em companhia de ti próprio: é de alma que precisas de mudar, não de clima."

E a linda "A bela e a fera", de Chico Buarque e Edu Lobo, na voz de ambos.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Travessuras na Travessa


Sábado foi dia de flanar na Travessa de Ipanema. Saldo do passeio: os livros "Diários de bicicleta" (David Byrne) e "Chico Buarque-Histórias de canções" (Wagner Homem); o DVD "This is it" (Michael Jackson); e os CDs "Nocturnes-Chopin, com a painista Idil Biret, e "Partimpim 2" (Adriana Calcanhotto).








"Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas" (Mário Quintana).




Ou isto ou aquilo
                                                                                  (Cecília Meireles)

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

 Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

 Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.


Em seguida, petiscos no Leblon.





Em tempos de samba, vou de "Perdoa", linda (e pouco conhecida) canção de Roberto e Erasmo Carlos:

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Olê-lê


A fome do primeiro grito (LXII)
                                                                                                                           (Hilda Hilst)

Que as barcaças do tempo me devolvam
A primitiva urna de palavras
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente

Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro

Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se as águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito

Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito


Em ritmo alucinante de carnaval, vamos com "The captain of her heart" (Double):


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

De Letras & Expressões


Como são as coisas...No início da noite de sábado, depois de assistir a "Notícias de uma guerra particular" (de João Moreira Salles e Katia Lund), lá ia eu começando a escrever sobre a situação da livraria Letras&Expressões.

Mas, ao me dar conta de que ainda não havia almoçado, resolvi interromper o projeto e fazer um picadinho. Após o jantar, já devidamente instalada na Patagônia caseira, fiquei passeando pelos canais a cabo e, de repente, pá: estava passando "O leitor". Eu havia visto esse filme no cinema no início do ano passado e ficado bastante impressionada com ele. Agora, na tv, pena que o tenha encontrado pelo meio, porque a cena da personagem de Kate Winslet envolvendo o personagem de David Kross com uma toalha no banheiro de sua casa, logo no início, é uma das mais bonitas que já vi na tela.

Enfim...o fato é que peguei o filme no momento em que ela, Hanna, no julgamento final, prefere se declarar culpada por ter assinado um documento que a incriminaria do que assumir que...não sabia ler. Sem entrar no mérito técnico-artístico-político - até porque a essência da história é mesmo outra -, a força e a delicadeza da narrativa de construção de um relacionamento em que uma pessoa ajuda a outra a ingressar no fantástico mundo da literatura não podem deixar de ser, para quem ama os livros, tocantes ao extremo.

E eu que pretendia, justamente, falar do que está acontecendo com as lojas da Letras&Expressões (Leblon e Ipanema). Há algum tempo, tendo percebido nas duas livrarias uma certa decadência, passei a concentrar minhas incursões literárias nas Travessa´s (também Leblon e Ipanema).

No final de janeiro, contudo, indo ao aniversário de uma amiga, fui antes na L&E aqui perto de ondo moro no intuito de comprar um livro de presente. E fiquei chocada. Simplesmente, não há lançamentos ou publicações tradicionais de catálogo. Olhei, olhei, e não consegui achar um único livro bacana. Tudo meio jogado, como um fim de festa. Para se ter uma ideia, só havia 1 (um) funcionário para atender toda a loja! Sabe o que comprei (só pra não chegar de mão abanando)? Um calendário com motivos gastronômicos...

Isso sem falar no fechamento recente da livraria Renovar, também em Ipanema, e da Saraiva (no Leblon), já há algum tempo.

Triste. Muito triste. Nada entendo desse mercado editorial. Portanto, me escapa à compreensão o porquê dessa situação lastimável. Inocententemente - e pollyannamente -, gostaria de acreditar num boom de vendas pela internet, que dispensaria o espaço físico das lojinhas. Mas, claro, não se trata disso. Até porque a rede Travessa segue com sucesso por aí, tendo, inclusive, aberto recentemente uma super filial na Sete de Setembro, no Centro.

Se é problema de gestão, de relacionamento entre sócios...não sei.

Um belo dia, perdemos o JB, como o grande jornal de ponta que era. Um belo dia, acordamos sem a Varig (pra não dizer que só trato das minhas sardinhas...).

Enfim...só me ocorre dizer: Viva "El Ateneo", de Buenos Aires, de nossa vizinha Argentina, que tantos problemas está vivenciando. Inclusive o de cerco à liberdade de expressão. Abramos os olhinhos, doutores.

Deixa eu ir, que minhas batatas estão literalmente assando, com alecrim, no forno. E ainda preciso grelhar os filés. Eu, hein, pensando bem, onde vão dar tantas secundárias divagações?
 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Esquindô-lelé


A-M-O carnaval e estou contando as horas para ele chegar. É um período em que tenho luxuosos dias livres para brincar intensamente nos dias de folia.

Brincar de ler, escrever, ir à praia, caminhar, assistir a DVDs musicais, cozinhar...e, claro, descobrir lugares legais na área gastronômica. Como esse aqui, recém-inaugurado:




 

Ou çege: everything, but carnaval !

Nunca entendi a, como direi, filosofia da constituição momesca, a cláusula pétrea que dispõe que tudo é permitido - de homem se vestir de mulher a inundar as ruas de sujeira e barulho.

Não compreendo a liberdade que possa haver no liberar geral, em consentirem-se todos os excessos durante esses dias. É uma intrincada noção do que venha a significar ser livre, a qual, francamente, não alcanço. E no resto do ano, o sentimento é de auto-repressão, frustração, recalque - qual é?

Na mesma linha, intriga-me sobremaneira a alegria embutida em embrenhar-se em locais apinhados de gente suada, pulando ao som de decibéis insuportáveis. À simples aparição na TV de cenas de multidões felicíssimas em bandas, blocos e trios elétricos, tenho ímpetos de correr para uma ducha gelada e voltar correndo para o ar condicionado.

Mas, afinal, de que tanto entendo eu de felicidade?

Melhor me ater as minhas programações pianíssimas e ermitãs, e não entrar no mérito das diversões alheias.

Para muitos, grito de carnaval. Para pouquíssimos, silêncio...muito silêncio. Ziriguidum, ôi!

Por falar em silêncio, vamos de "Speak low", na voz de Billie Holiday, em versão remix, ilustrada por fotografias p&b da década de 40:

domingo, 31 de janeiro de 2010

Luar na Sambaíba


"A volúpia corporal é uma vivência dos sentidos, não difere do simples olhar ou da pura sensação de água na boca causada por uma fruta; ela é uma grande experiência, infinita, que nos é dada, um saber do mundo, a plenitude e o brilho de todo saber. Não é ruim o fato de a aceitarmos; ruim é o fato de que quase todos abusam dessa experiência e a desperdiçam, usando-a como um estímulo nos momentos cansados de sua vida, como uma distração, em vez de uma concentração para alcançar pontos mais altos. Os homens converteram até mesmo o ato de comer em uma outra coisa: carência por um lado e excesso por outro. Obscureceram a clareza dessa necessidade; e igualmente obscurecidas se tornaram todas as necessidades profundas e simples nas quais a vida se renova."

(Rainer Maria Rilke em "Cartas a um jovem poeta")

  


Na ambiência do extraordinário texto de Rilke, nada melhor do que a inebriante "You'll Never Find Another Love Like Mine", com Lou Rawls.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Urca


 
  
  
    

Passei boa parte da tarde de hoje lendo poesia. Trago esta, de Cecília Meireles, para acompanhar as imagens feitas na Urca.

Soneto antigo

Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do anjo.
E todos somos pura flor de vento.


E, por falar em Urca, a música de seu morador mais ilustre, Roberto (com Erasmo), na voz de Ney Matogrosso, "A Distância":



quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O mundo




Ontem fui na Mamma Jamma, pizzaria-butique que abriu onde era o Saturnino, no Jardim Botânico. Ambiente muito bonitinho, atendimento bom, pizza ótima (na textura certa para mim, totalmente avessa à tal da massa fininha, que pode ser tudo, menos pizza). Devo honrar meu sobrenome!

Tudo ia muito bem, o malbec macio. Até chegar o momento em que toda mulher precisa, digamos assim, pentear o cabelo. No hall dos toaletes, o que temos? Ai, ai, ai, senhoras e senhores...aquelas indefectíveis plaquetas que teimam em confundir o acesso a banheiros com ante-salas de museus.

Sejamos francos. Quem de vocês, diante da necessidade imperiosa de retocar o penteado, acha graça em passar longuíssimos segundos precisando decifrar símbolos, abstrações, cores, traços, enfim, quaisquer elementos que intentem diferenciar o local destinado a mulheres e homens?

Ah, que saudade do velho e bom H & M ou M& F...

Cara, na boa...se eu quiser contemplar instalações, esperarei a Bienal de São Paulo. De uma porta de banheiro de restaurante desejo mais objetividade (e limpeza) e menos arte.

Em tempos de Fórum de Davos e de drible ao Tribunal de Contas da União, vamos de música:

"O Mundo" (de André Abujamra), com Moska, Lenine e Zeca Baleiro.


 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Paraísos artificiais


Não sei vocês - que também são brasileiros -, mas eu não quero ser levada ao paraíso pela Dilma Rousseff. Prefiro outras mãos como guia.

A coluna de Ricardo Noblat de hoje, no Globo, me representa.

E essa história de PT e PMDB fiscalizarem a nova Superintendência Nacional de Previdência Complementar, agência reguladora dos cofres arquibiliardários dos fundos de pensão? Vocês é que estão dizendo que é escalar raposa pra tomar conta de galinheiro. Eu nada entendo de política.

Depois de um domingo ao lado de minha afilhada, saudável e feliz andando pela casa, está bem fresca em mim a noção do que seja paraíso. E natural.

E vou é de "Sorria", com Os Travessos.

sábado, 23 de janeiro de 2010

"A vida é um desmentido"



A coluna de José Castello no Prosa&Verso (O Globo) de hoje gira em torno da coletânea organizada por Ítalo Moriconi (que foi meu professor na faculdade) de poemas de Ana Cristina Cesar, Cacaso, Paulo Leminski, Torquato Neto e Waly Salomão.

E já começa impactante com os versos de Cacaso: "Minha pátria é minha infância / Por isso vivo no exílio".

Que tal?

Mais adiante, Castello lembra palavras ditas por Waly em seu ouvido durante debate - que, a princípio, seria dividido entre eles dois -, desculpando-se por falar sem parar e não deixar brecha para o amigo: "Parece que nunca dou dentro de mim".

Que tal 2?

E Leminski: "Marginal é quem escreve à margem / deixando branca a página / para que a paisagem passe / e deixe tudo claro à sua passagem". Sobre esses versos, Castello observa: "Habitar a margem foi uma maneira de expor o grande vazio do miolo".

Mais é a respeito do poema de Cacaso que o colunista brilha. Diz ele: "Estamos sempre deslocados - em relação às crianças que fomos, ao futuro projetado por nossos pais, aos esforços ferverosos da educação. Às certezas (precárias) que aprendemos a aceitar. A vida é um desmentido".

A vida é um desmentido. Que frase! De um poder de síntese absurdo. Pois não é a vida essa força ingovernável a desmontar incansavelmente teses, planos, convicções...as relações mais profundas e "eternas"?

Ainda no Globo, mas o de quinta, saiu uma matéria sobre a exposição aberta esta semana na Royal Academy of Arts, em Londres, com a correspondência de Van Gogh para várias pessoas, entre elas, Theo, seu irmão e mecenas.

Muito me admirou, dentro de uma matéria relativamente longa - meia página -, não ter sido mencionado o livro "Cartas a Theo" (L&PM), que traz justamente as cartas escritas pelo extraordinário holandês a seu irmão entre 1873 e 1890.

Para quem ama arte, esse livro é imperdível, pois, como bem declarou a curadora do evento, desmistifica a ideia de que VG "era apenas um gênio louco que pintava como se sofresse espasmos".

Muito longe disso. Ao ler esse livro há muitos anos (pesquisando agora, descobri que em 2002 foi lançada uma edição em que se acrescentaram mais de 100 cartas em relação à primeira, de 1997), fiquei impressionada com a profunda noção de técnica demonstrada por ele (desde sempre, meu pintor preferido). Mais ainda: como conseguia formular tão bem seu pensamento por escrito.

Jamais esquecerei a primeira vez em que contemplei seus quadros ao vivo, quando os impressionistas ainda habitavam o Jeu de Paume, no Louvre. Aquela explosão de cores inigualável, a intensidade dos sentimentos ali transbordante, a complexidade de emoções por eles provocadas...nada daquilo me convencia ser produto pura e simplesmente de uma cabeça atormentada por natureza e alucinada por absinto.

Quando li "Cartas a Theo", tudo se iluminou. Havia muito, muito além. Desde então, recomendo esse livro a tantos que acho que irão se apaixonar por ele. E agora, com o prazer de sempre, mais uma vez. Eu mesma vou atrás dessa versão atualizada, que desconhecia existir. Cá pra nós, bem melhor que estar em Londres para ver a exposição. Além do frio glacial que está fazendo por lá, seria muito desconfortável ler cartas como essas em pé...


domingo, 17 de janeiro de 2010


Acabei de ler "Guinga, Os mais belos acordes do subúrbio", escrito pelo jornalista Mario Marques. Em determinado momento, ele diz: "Uma tarde de papo com Guinga pode causar interferências irreversíveis". Verdade verdadeira.

Aproveito para puxar uma brasinha pro meu peixe, o perfil que fiz para a Carioquice com o poeta das cordas.  Uma conversa de duas horas, em duas poltroninhas lado a lado no lounge do Rio Design Center, no Leblon. Sem um gole de água, café, nada. Gente circulando sem parar, nada que propiciasse um ambiente ideal para megulhar com acuidade e precisão no universo transbordante desse criador, para o qual não há palavras que cheguem. Mas, estranhamente, parecia que estávamos num outro planeta - e estávamos mesmo: o planeta profundo, misterioso e cheio de silêncios da música. Minha entrevista com Guinga foi a mais tocante que fiz na vida.

Olha que que coisa mais linda: “Só eu sei o que fiz para poder fazer uma obra. Só eu sei o sacrifício. Eu não dormia. Saía de casa às cinco da manhã para abrir a minha clínica às seis e meia e ficava lá até as dez da noite. Nunca tirei férias. Compunha dentro do consultório e deixava de dormir para criar – só dormia uma média de três horas por noite.” 


 



Azul Marinho, Arpoador 
 

Lagoa 

 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Caros,

Em resposta a comentários e emails que recebo perguntando sobre novos textos e o sumiço das enquetes:

Em relação a estas, adoro fazê-las e, com a quantidade de assunto disponível, poderia postar várias por dia. É sempre um momento bem humorado de observar criticamente o que estamos vivendo, sobretudo na vida nacional.

Mas os acontecimentos no final do ano me desestimularam: as cenas degradantes (e recorrentes) de dinheiro sendo enfiado em meias e calças em Brasília, com as criaturas em suposto (e inacreditável) momento de oração pela "graça" obtida; os oportunismos de imagem na COP-15; e - que horror! - o linguajar presidencial para exprimir saneamento básico - esse investimento de primeira necessidade cuja falta histórica compromete a dignidade de tantos brasileiros.

Sinceramente...é quase impossível eu não querer fazer graça de tudo. Mas sobre os dois primeiros itens, sem comentários. A respeito do último, acho de uma tristeza infinita que o presidente da República, à guisa de falar "a língua do povo" - e assim subestimar a capacidade de pessoas simples de entender palavras como "água" e "esgoto" - recorra a palavrão.Enquanto Lula é reverenciado como um mestre da comunicação, com suas metáforas futebolísticas para traduzir economês e politiquês, vá lá. Mas palavrão é recurso muito feio, vulgar, acho eu, mesmo no dia a dia e entre amigos. Que dirá na boca da maior autoridade do país.

Se meu filho chegasse em casa dizendo que o presidente quer tirar o povo da M, como explicar a ele que esse não é um modo adequado de se expressar? Tudo tão leviano, tão irresponsável. E tão impune. E o que dizer da tosca história do "porco e do dono do porco"? Caetano, recententemente, declarou que Lula se expressava de forma cafona e grosseira. Se fosse só cafona, uma questão - ainda que lamentável - estilística. Mas grosseria...Hoje, lendo a palestra de um empresário em 2008, ele disse: "Tenho às vezes vergonha de como ele (o presidente) fala". Que Lula agrida, sem dó nem piedade, a gramática e não demonstre um átimo de interesse em disfarçar o desprezo pela nossa língua, que restrinja esse "costume" deplorável a sua casa, ou ao seu palácio. Enfim, aos seus. Em público, exijamos mais. Nossas crianças merecem. Todos merecemos respeito e fala educada.

Por fim, essa situação tristíssima em nosso Estado no início do ano. E, agora, indizível, no Haiti. Mentalizemos e oremos por todos. A respeito de nossa Dra. Zilda Arns, li no Globo um pensamento do teólogo Luiz Antonio Ricci, atribuído à Madre Teresa de Calcutá: "Não podemos permitir que uma pessoa deixe a nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz".

Impossível agradecer a mobilização de tantos - médicos, bombeiros, voluntários, jornalistas - que, com todas as dificuldades, estão indo para lá, numa atitude impregnada de uma humanidade assombrosa.